Rumores nascem sem se ver e crescem como mitos; lendas, talvez. São testemunhos alterados, por vezes até inventados. Ninguém sabe onde começam ou porquê, nem onde e quando vão parar. Eu sei que todos os desprezam, por isso não consigo perceber a razão pela qual cada um lhes dá continuidade. A sociedade em que vivo está contaminada daquelas pessoas que apenas se interessam pelas vidas dos outros. Aquelas pessoas que pensam, somente, em saber tudo o que se passa à sua volta, em vez de olharem para o interior delas próprias. Quer sejam os pormenores da vida amorosa da vizinha, ou o salário do motorista que conduz o autocarro das dez. Todas e quaisquer histórias de boca em boca vão passando, sem distinção de fonte ou teor. Chegam, então, aos ouvidos da sua vítima, depois de terem circulado, em segredo, por toda a parte. Na verdade, esta ainda não tinha percebido a razão dos olhares em trejeito pelas ruas, mas aqui está a resposta. Uma razão completa de preconceitos e despida de justiça ou ponta de uma mínima verdade. Agora, transformou-se numa mentira forte, aquele rumor. Com garras e difícil de matar. Resta esperar pelo tempo até ao recomeço fútil, oco e desajeitado de um novo rumor recém-nascido, que rapidamente ocupará o lugar deste anterior a si, entrando no ciclo vicioso da vida vazia que é a da pobre de espírito empregada da mercearia mais próxima.
7 de março de 2008
17 de fevereiro de 2008
É tudo mentira!
"Quando eu era pequenina, acreditava que as estrelas me ouviam, quando eu espreitava pela janela e olhava para a noite escura. Falava com elas de mansinho, devagar e baixinho para que ninguém me pudesse ouvir, e tinha a certeza de que elas, a brilharem lá em cima, percebiam tudo o que eu dizia. Mas agora, que já tenho dez anos, não acredito nas estrelas. Se elas fossem boazinhas, se elas me ouvissem de verdade, eu não precisava de estar aqui escondida debaixo dos cobertores, a a cantar uma musica dentro da minha cabeça para ver se o medo foge.
Também já não acredito em fadas nem em anjos-da-guarda como me ensinou a professora da escola.
É tudo mentira. Se eles existissem, e as estrelas fossem minhas amigas eu não estava aqui. Mas estou."
Ela já não acredita. Mas eu tenho 17 anos, e ainda acredito que as estrelas me ouvem, as fadas existem e os anjos-da-guarda me protegem. Se assim não fosse, eu estaria escondida debaixo dos cobertores, a cantar uma música qualquer dentro da minha cabeça, para ver se não tinha medo de mais nada.
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