Sentada a ouvir uma música qualquer. Lá fora, a chuva cai. Olho para o céu. Está feio. Mais feio do que nunca. Hoje era mesmo um daqueles dias em que preferia ficar por aqui. Apenas. Por entre os meus lugares, envolta nos espaços mais submersos da minha memória. Não olharia para nada, para ninguém. É sozinha, no vazio, que gosto de recordar e tentar esquecer vivências. E por vezes surgem pensamentos tão estranhos. Daqueles que nunca pensei um dia vir a ter. Invadem-me e não saem de mim durante todo o meu estado de repouso e reflexão. Pensamentos chatos, vazios, sem a mínima utilidade para além de nos ocupar tempo, ocupar ideias, fazer pensar cada vez mais. Como um rio. De início largo mas depois, vai ramificando até chegar à mais pequena corrente de água, à última gota de todas. Até que esqueço o que é realmente importante. Até que esqueço o que há, de facto, a tratar. Até que mergulho no meu rio e deixo para trás todos os momentos nos quais pensara. É desta forma, por meio de ramificação, que vejo tudo a ser destruído à minha volta. Uma amizade. Algo que deve ter a força de um rio. Um rio largo, quando as duas pessoas se interessam em cuidar dele, em mergulhar nas suas águas e limpá-las frequentemente. É então que percebo que acaba sempre por se iniciar uma fase de ramificação. Mais cedo ou mais tarde, acabará na última gota.
26 de abril de 2008
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