22 de junho de 2008

18 de junho de 2008

Perto de Sítio Nenhum

Uma base totalmente modificada. Entre momentos de silêncio e jogos com seriedade, surgiu o grito mais forte. E esse grito chama-se Artur. Não são tanto as tintas que movem o mundo, tão pouco os conflitos interpessoais. Há muito mais para além do que é distinguido pelos olhos. Momentos fechados, palavras escondidas, uma recordação qualquer. O mundo que se forma à volta dos pensamentos e emoções de cada um e que nunca se deixa desvendar. Esse sim, afinal, exige tantas questões. Perguntaste qual é o meu sonho? Eu digo-te, então. Sonho não ter de sonhar mais nada. Tenho 20 anos, sou de Lisboa. Durante o secundário, andei em Artes e agora sou pintor. Moro com as minhas irmãs, Beatriz e Benedita. Os meus pais morreram e eu nem me lembro de como eram. Então, era isto? Ah! Já trabalhei num bar e um dia como voluntário para o metro. Enfim… o Artur. O que é o Artur afinal? Viaja. Sim, viaja imenso. Mas sem merdas de gente por perto. Um pequeno universo dentro de um imaginário sem fim; sempre manchado a preto e vermelho.

23 de maio de 2008

15 de maio de 2008

Entre uma Colher e um Garfo

Uma colher. Como é que se come com uma colher? Uma coisa tão, aparentemente, mole. Tão sem jeito. Sem forma, sem cor ou cheiro. Sem vida. Um objecto morto. É que nem todos os objectos estão completamente mortos. Um garfo, por exemplo. Um garfo não é assim, é diferente. Um garfo tem personalidade e vida própria. Tem carácter forte e independente. Não é do tipo de se deixar deitar a baixo e enxovalhar. Mantém-se ali, forte e firme. Um caminho, quatro opções. Há sempre mais escolhas para além da mais fácil. Há sempre a mais picante, a mais económica, a mais insonsa. E, mesmo que esta seja a mais escondida no fim da última prateleira, há sempre a mais acertada.

28 de abril de 2008

Floresta: associação mais ou menos extensa de plantas da espécie arbórea; selva, bosque, mata que abrange grande extensão de terreno.

Cidade: povoação de primeira categoria, de maior importância e grandeza.

26 de abril de 2008

Ramificando

Sentada a ouvir uma música qualquer. Lá fora, a chuva cai. Olho para o céu. Está feio. Mais feio do que nunca. Hoje era mesmo um daqueles dias em que preferia ficar por aqui. Apenas. Por entre os meus lugares, envolta nos espaços mais submersos da minha memória. Não olharia para nada, para ninguém. É sozinha, no vazio, que gosto de recordar e tentar esquecer vivências. E por vezes surgem pensamentos tão estranhos. Daqueles que nunca pensei um dia vir a ter. Invadem-me e não saem de mim durante todo o meu estado de repouso e reflexão. Pensamentos chatos, vazios, sem a mínima utilidade para além de nos ocupar tempo, ocupar ideias, fazer pensar cada vez mais. Como um rio. De início largo mas depois, vai ramificando até chegar à mais pequena corrente de água, à última gota de todas. Até que esqueço o que é realmente importante. Até que esqueço o que há, de facto, a tratar. Até que mergulho no meu rio e deixo para trás todos os momentos nos quais pensara. É desta forma, por meio de ramificação, que vejo tudo a ser destruído à minha volta. Uma amizade. Algo que deve ter a força de um rio. Um rio largo, quando as duas pessoas se interessam em cuidar dele, em mergulhar nas suas águas e limpá-las frequentemente. É então que percebo que acaba sempre por se iniciar uma fase de ramificação. Mais cedo ou mais tarde, acabará na última gota.

23 de abril de 2008

E se pudesses voltar atrás?

E se pudesses voltar atrás no tempo, um minuto, uma hora, uma semana, um mês, um, dois, três anos atrás? Voltavas? E mais importante ainda: mudavas alguma coisa? Porque de certeza que já desejaste poder mudar alguma coisa, por mais pequena que fosse, uma palavra dita da boca para fora no local e hora errada, uma decisão que tomaste, a maneira como fizeste qualquer coisa, um pequeno pormenor que teve um grande efeito na tua vida. Mudavas? Alteravas aquilo que tinhas feito, mesmo sabendo que isso poderia ter consequências naquilo que agora és? Sabias que essa pessoa que decidiu mudar uma coisa que fez num tempo anterior ao que está a viver, se existisse podia ter-se tornado noutra pessoa completamente diferente? Talvez sim, talvez não, talvez seja melhor pararmos de pensar em voltar atrás e concentrarmo-nos no agora. Porque o que passou já lá vai e não há nada que possamos fazer para o alterar, temos é de manter a cabeça no presente, para ter a certeza de que, mais tarde não nos arrependemos do que fizemos. Como disse Chaplin: "A vida e uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso canta, ri, dança, ama e chora, e vive intensamente cada dia antes que as cortinas se fechem e a peça termine sem aplausos".

18 de abril de 2008

2 de abril de 2008

“Não existem livros morais ou imorais. Os livros são mal ou bem escritos."

“O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.” Obcecado pela beleza dionisíaca do jovem Dorian Gray, que conhece numa festa da alta-sociedade londrina em casa de Lady Agatha, Basil Hallward faz dele seu modelo. Nas várias sessões em que Dorian pousa para Basil desenvolve-se entre os dois uma amizade que coloca o artista numa posição de extrema fragilidade. Basil está fascinado pelo perturbador Dorian que, por sua vez, se deixa envolver pelo olhar cínico e irónico de Lord Henry Wotton, o mesmo que define a beleza como uma forma de génio. Confrontado com a beleza do seu retrato e a impossibilidade de a manter para sempre, Dorian promete a sua alma em troca da juventude eterna. Ao longo do romance, o quadro passa de retrato a duplo de Dorian, já que nele se inscrevem todas as marcas que o tempo e o comportamento deviam deixar no homem – é o retrato que envelhece, enquanto Dorian conserva os traços perfeitos que Basil inicialmente fixou. Romance gótico ou comédia de costumes, “O Retrato de Dorian Gray” é uma obra em que Oscar Wilde confronta o leitor com a perfeição impossível, as convenções dispensáveis ou a mortalidade inevitável. Sempre com um tom provocador. “Toda a arte é inútil.”

7 de março de 2008

O meu texto na próxima edição do jornal "Chapitando"

Rumores nascem sem se ver e crescem como mitos; lendas, talvez. São testemunhos alterados, por vezes até inventados. Ninguém sabe onde começam ou porquê, nem onde e quando vão parar. Eu sei que todos os desprezam, por isso não consigo perceber a razão pela qual cada um lhes dá continuidade. A sociedade em que vivo está contaminada daquelas pessoas que apenas se interessam pelas vidas dos outros. Aquelas pessoas que pensam, somente, em saber tudo o que se passa à sua volta, em vez de olharem para o interior delas próprias. Quer sejam os pormenores da vida amorosa da vizinha, ou o salário do motorista que conduz o autocarro das dez. Todas e quaisquer histórias de boca em boca vão passando, sem distinção de fonte ou teor. Chegam, então, aos ouvidos da sua vítima, depois de terem circulado, em segredo, por toda a parte. Na verdade, esta ainda não tinha percebido a razão dos olhares em trejeito pelas ruas, mas aqui está a resposta. Uma razão completa de preconceitos e despida de justiça ou ponta de uma mínima verdade. Agora, transformou-se numa mentira forte, aquele rumor. Com garras e difícil de matar. Resta esperar pelo tempo até ao recomeço fútil, oco e desajeitado de um novo rumor recém-nascido, que rapidamente ocupará o lugar deste anterior a si, entrando no ciclo vicioso da vida vazia que é a da pobre de espírito empregada da mercearia mais próxima.